Opinião

10/01/2018

A paz como um novo consenso

* Samia Saad Gallotti Bonavides

A cultura de paz nos remete a pensarmos nos relacionamentos da vida social. Embora a maior parte das pessoas mantenha relações que se desenvolvem normalmente, sem a necessidade de interferência estatal, existem aquelas que optam pelo não estabelecimento de diálogos e consensos, necessitando da imposição de uma decisão por parte de um juiz.

Enquanto muitos se empoderam de suas vidas, adotando atitudes de concórdia e com foco em seus reais interesses, outros preferem manter seu próprio ponto de vista como único possível, marcando posições sobre situações cotidianas, independente de argumentos contrários que sejam apresentados. Com isso, elegem a prevalência de sua “posição”, com a busca por uma vitória a qualquer custo. Não existe disposição para ouvir, concordar ou mesmo refletir sobre o melhor para cada parte e os ânimos com frequência estão prontos para batalhas, sejam as judiciais ou de qualquer outra natureza.

Tal enfoque nos permite compreender que é essencial reconhecer o “interesse” para dissolver posturas fincadas na “posição”. Aqueles que agem assim, não provocam empatia, ignoram a alteridade e não se colocam no lugar do outro. Somente conseguem, com isso, criar ambientes de disputa, agressividade e angústia.

Vencer nem sempre coincide com a satisfação do “interesse”, que é a medida certa do que se precisa. Há litígios absolutamente desnecessários, porque muitas vezes os interesses podem ser passíveis de atendimento, sem que um anule o outro, ou seja, há possibilidade de um ganha/ganha.

Para isso, a cultura de paz pode dar grande contribuição, introduzindo uma performance diferente para alguém ser feliz, apesar dos eventuais desacordos que acontecem. A partir do estímulo a conversas, a uma comunicação não violenta e a busca por entendimentos, tal comportamento mostra que ser amigável e compreensivo é algo tão racionalmente correto, que não agir assim é um acidente de percurso, como desaprender a andar de bicicleta, ou seja, algo impensável porque deveria estar em nós como instinto de vontade de viver bem.

Os benefícios começam pelo empoderamento. A pessoa se torna alguém com domínio sobre sua vida, sem precisar de imposições externas. Nesse sentido, a solução negociada é satisfatória na medida em que auxilia a esclarecer as desordens sociais. Se a escolha fosse entre querer a condenação de alguém que praticou um crime ou a compreensão da causa pela qual o crime foi cometido, veremos que há mais lógica nos que veem a segunda alternativa como a mais construtiva, porque é nela que reside alguma chance de mudança real na forma de tratar o caso de forma positiva.

Conseguir obter mais elementos de compreensão é inerente ao ser humano dotado de racionalidade e de vontade de mudar o mundo. Nós dependemos da confiança no outro, mais do que de vingança. Por isso, é importante tratar da recuperação daqueles que eventualmente tenham assumido determinado comportamento desviante, e também de minorar sentimentos de temor ou raiva. Deveríamos mudar essa ânsia de desejar o mal a quem provocou um mal, mas não estamos sempre dispostos e abertos, nem somos estimulados, o que é uma pena, pois essa seria uma escolha realmente cool.

Se pesquisarmos sobre as cidades mais seguras no mundo, veremos que são aquelas com um bom envolvimento comunitário e que contam com prestação de serviços que se caracterizam pela preocupação com o outro, encarado na sua diversidade e adversidade. E é mais ou menos certo que a transformação coletiva vem a partir do tipo de convivência que se estabelece quando as pessoas são tratadas com respeito, dignidade, boas condições de trabalho, educação formal, ou seja, tudo aquilo que contribui para o desenvolvimento e a realização do ser humano.

A cultura de paz e o consenso exercitados pelas técnicas negociais têm mais a ver com indivíduos e seus comportamentos, anseios e medos, mostrando a origem das questões, do que com as consequências jurídicas. É um saber viver coletivamente, a partir da compreensão e do envolvimento no que acontece, para além da preocupação de eleger culpados. Por essa razão, é uma tendência em relação à qual devemos estar antenados. Esta escolha, bem como as oportunidades que dela podem decorrer, dependem de adotarmos um estilo moderno reflexivo, o que é um excelente projeto para este início de ano, que assim possa vir a ser considerado novo por elegermos concepções mais descoladas e de acordo com quem tem o privilégio de viver no século XXI.

* Procuradora de Justiça e coordenadora do Comitê Permanente de Incentivo à Autocomposição (CPIA) e do Projeto MP Resolutivo e a Cultura da Paz.

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